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Rolling Forecast: da previsão anual ao sistema nervoso da gestão financeira

 

 

No dinâmico cenário corporativo de 2026, a gestão financeira atravessa uma transformação estrutural. O orçamento estático, elaborado uma vez ao ano, aprovado politicamente e revisitado com frustração a cada fechamento mensal, está sendo substituído por uma ferramenta muito mais resiliente e estratégica: o Rolling Forecast (projeção móvel).

Mais do que uma evolução técnica de planilha ou software, o Rolling Forecast representa uma mudança de mentalidade. Ele transforma o financeiro de um registrador do passado em um sistema de navegação em tempo real, capaz de recalcular rotas antes que desvios operacionais se tornem crises de liquidez.

A essência de um Rolling Forecast eficaz está na modelagem dos drivers de valor, os direcionadores que explicam o desempenho econômico-financeiro da empresa.

Esses drivers podem ser divididos em dois grandes grupos:

1. Drivers externos (não controláveis, mas previsíveis)

São as “forças do ambiente” que impactam o negócio independentemente da execução interna:

• Taxa Selic e curva de juros futura
• Câmbio (USD/BRL, EUR/BRL)
• Inflação e índices setoriais
• Reforma Tributária brasileira e mudanças regulatórias
• Preços de commodities (energia, insumos industriais, frete)

Exemplo prático:

Uma indústria com 40% de insumos dolarizados pode modelar que uma depreciação de 10% do real impacta diretamente a margem bruta em -3 p.p., caso não haja repasse de preço. Esse impacto precisa estar automaticamente refletido no forecast.

2. Drivers internos (controláveis e executáveis)

São as variáveis operacionais que o management pode influenciar:

• Taxa de conversão do funil de vendas
• Ticket médio e mix de produtos
• Custo de aquisição de clientes (CAC)
• Produtividade operacional (custo por unidade, eficiência de plantas, churn)
• Prazo médio de recebimento (PMR) e pagamento (PMP)
• Nível de estoques

Exemplo prático:

Um varejista pode modelar que um aumento de 10 dias no PMP consome R$ 25 milhões adicionais de capital de giro em 18 meses, reduzindo a geração de caixa operacional e elevando a necessidade de dívida.

A peça-chave que conecta os drivers à execução estratégica é a Matriz de Gatilhos Financeiros.

Em 2026, não basta monitorar indicadores, é necessário definir ações pré-programadas para cada cenário.

Exemplos de gatilhos:

Rolling Forecast - Drivers internos

 

O Rolling Forecast moderno abandona a obsessão exclusiva por EBITDA e foca na variável suprema: geração de caixa.

A lógica fundamental pode ser sintetizada como:

Geração de Caixa ≈ (Receita × Margem ) - ΔCapital de Giro - CAPEX

Isso significa que:

• Crescimento de receita pode destruir caixa se capital de giro aumentar demais
• Margens elevadas não garantem liquidez se PMR explodir
• CAPEX mal sincronizado pode matar empresas lucrativas

Exemplo realista:

Uma empresa cresce 30% ao ano, mas o PMR passa de 45 para 90 dias. O capital de giro consome R$ 50 milhões adicionais, levando a empresa a captar dívida cara, apesar de apresentar lucro contábil recorde.

Diferentemente do orçamento anual, o Rolling Forecast trabalha com horizontes móveis de 12, 18 ou 24 meses, recalculados mensalmente ou trimestralmente.

Isso permite ao CFO:

• Antecipar janelas de captação de dívida ou equity
• Planejar dividendos com segurança
• Identificar períodos de cash surplus (excedente de caixa) para M&A ou CAPEX agressivo
• Simular cenários macroeconômicos em tempo real
O obstáculo mais perigoso do Rolling Forecast não é técnico, mas comportamental: o viés otimista gerencial.

 

Times comerciais tendem a superestimar vendas futuras. Operações subestimam custos. CEOs projetam “recuperações em V” por pressão estratégica.


No Rolling Forecast, esse viés é um risco sistêmico

Empresas líderes têm adotado:
• Modelos estatísticos baseados em séries históricas
Machine Learning para previsão de vendas e churn (taxa de cancelamento)
• Auditorias algorítmicas que confrontam forecasts com benchmarks de mercado
• “Cenários de estresse” obrigatórios no board pack (kit do conselho)

A premissa é simples: melhor um forecast pessimista e verdadeiro do que um otimista e fatal.

Em última análise, o Rolling Forecast transforma a incerteza em uma variável gerenciável.

Em um mundo onde o cenário de janeiro raramente sobrevive até março, agilidade financeira não é vantagem competitiva, é condição de sobrevivência.

O papel do financeiro moderno não é mais apenas reportar o que aconteceu.

É preparar a empresa para o que está por vir, garantindo dois ativos críticos:

• Combustível: caixa
• Direção: estratégia baseada em dados

O Rolling Forecast não deve ser tratado como uma ferramenta de planejamento incremental, mas como infraestrutura crítica de alocação de capital. Em ambientes voláteis, empresas que operam sem um sistema adaptativo de projeção estão, na prática, gerindo com dados defasados. É necessário tratar o Rolling Forecast como um sistema vivo de decisão que constrói resiliência, opcionalidade estratégica e longevidade.

 

 

Maurício Vieira - Sócio na Mirar Gestão Empresarial