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Reforma Tributária no Brasil: o que muda na prática para o seu negócio

 

 

A reforma tributária brasileira deixou de ser uma promessa distante. Ela já está em vigor - e vai transformar, de forma profunda, a maneira como as empresas calculam, recolhem e pensam seus tributos. Para muitos empresários, porém, a percepção ainda é de que o assunto "é coisa do contador", mas essa afirmação é um equívoco, e pode causar consequências.

Neste artigo, explicamos o que muda na operação do seu negócio, por que o período de transição exige atenção imediata e de que forma as empresas que se prepararem agora sairão na frente.

O que é a reforma tributária e quais são os novos tributos

A reforma tributária foi estruturada com um objetivo declarado: simplificar o sistema, trazer mais transparência e oferecer maior segurança jurídica aos contribuintes. Para isso, o modelo brasileiro de tributação sobre o consumo passa por uma reestruturação significativa, com a substituição de tributos antigos (como PIS, Cofins e ICMS) por novos: o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IS (Imposto Seletivo).

O IBS reunirá as competências de estados e municípios, substituindo o ICMS e o ISS. Já a CBS será de competência federal, substituindo PIS e Cofins. Ambos seguirão a lógica do imposto sobre valor agregado (IVA), com não-cumulatividade plena, ou seja, o tributo incidirá apenas sobre o valor que foi, de fato, adicionado em cada etapa da cadeia produtiva.

Na teoria, a proposta é consistente. Na prática, porém, a complexidade da regulamentação ainda está sendo construída: o regulamento do IBS conta com mais de 600 artigos, e a lei complementar que estrutura a reforma já ultrapassa 540 artigos. Muitas definições operacionais ainda aguardam publicação. Isso significa que, embora a reforma já tenha começado, boa parte das suas regras ainda está sendo escrita.

O período de transição: mais complexidade antes da simplificação

Um ponto que frequentemente surpreende empresários e gestores é que, antes de simplificar, a reforma tributária vai tornar o sistema temporariamente mais complexo. Durante o período de transição, que se estende até 2033, as empresas precisarão conviver simultaneamente com os tributos antigos e os novos - cada um com suas próprias regras, sistemáticas e obrigações acessórias.

Para empresas habituadas a recolher tributos sobre o faturamento, sem necessidade de controlar créditos, essa mudança representa uma virada de lógica. A partir de agora, de quem você compra importa tanto quanto para quem você vende. O direito ao crédito tributário passa a depender diretamente do perfil do fornecedor e do correto cumprimento das obrigações tributárias ao longo da cadeia.

Além disso, a tributação migra da origem para o destino: o imposto será devido no município e no estado onde está o consumidor final, e não mais onde a empresa vendedora está estabelecida. Isso altera contratos, preços, margens e relações comerciais, e exige que o empresário entenda essa mudança, não apenas delegue ao contador.

Precificação: o ponto mais sensível da reforma para as empresas

A mudança na lógica de tributação afeta diretamente a formação de preços. Com os novos tributos sendo destacados explicitamente nas notas fiscais (e não mais embutidos no valor do produto ou serviço), o cliente final vai enxergar com clareza o quanto de imposto está pagando. Isso cria um novo ambiente competitivo.

Empresas que, durante o período de transição, mantiverem seus preços sem ajustar a base de cálculo, por exemplo: deixando de descontar tributos que estão sendo extintos enquanto destacam os novos, terão uma vantagem artificial de margem. Ao mesmo tempo, empresas que não monitorarem seus fornecedores podem pagar um preço cheio por um crédito que nunca chegará.

Por isso, a precificação passa a ser uma decisão estratégica de primeira ordem. Ela envolve entender qual é o real custo tributário da operação, quais créditos estão disponíveis, qual regime seus fornecedores adotam e qual o impacto líquido de cada transação no fluxo de caixa.

Empresas do Simples Nacional, por exemplo, recolhem seus tributos de forma unificada e por dentro, o que significa que o crédito gerado para o comprador será híbrido. Duas empresas do mesmo segmento, com fornecedores em regimes distintos, podem ter custos tributários radicalmente diferentes. Generalizar nesse cenário é um erro.

A responsabilidade que não pode ser terceirizada

Há um entendimento comum, e perigoso, de que a reforma tributária é "um assunto do contador". Ela não é. O contador é um parceiro estratégico indispensável, mas a responsabilidade pelas decisões de negócio é do empresário. É ele quem assina os contratos, autoriza os pagamentos e responde pelas consequências fiscais das escolhas operacionais.

Isso significa que o empresário precisa, no mínimo, compreender as mudanças que estão em curso. Saber que o documento fiscal passa a ser a base para geração de débitos e créditos. Entender que fornecedores inadimplentes comprometem o aproveitamento de créditos. Perceber que o controle de estoque, as conciliações internas e a separação entre as finanças da empresa e as do sócio deixam de ser boas práticas e passam a ser requisitos de sobrevivência.

Empresas que chegam à reforma com processos internos desorganizados (pagamentos sem documentação adequada, notas emitidas incorretamente, mistura entre pessoa física e jurídica) terão dificuldades muito maiores para se adaptar. E as penalidades, financeiras e administrativas, serão reais.

A reforma como oportunidade

Apesar de todo o peso da transição, a reforma tributária carrega uma dimensão positiva para as empresas bem preparadas: ela vai, progressivamente, separar os competidores sérios dos que se sustentavam na informalidade ou na inadimplência tributária.

Fornecedores que se financiavam com o imposto, ou seja, cobravam o tributo no preço, mas não recolhiam, terão esse espaço eliminado. A apuração em tempo real, com atualizações frequentes e saldos disponíveis diariamente, tornará muito mais difícil operar fora das regras sem ser detectado. Município, estado e Receita Federal, e até os próprios parceiros comerciais, passarão a ter interesse direto em fiscalizar a regularidade de cada elo da cadeia.

Para quem já opera com controles adequados, isso é uma vantagem competitiva. A empresa que se organizar agora estará em posição muito mais sólida quando a complexidade da transição atingir seu pico.

O que fazer agora: primeiros passos práticos

Diante de tudo isso, por onde começar? Alguns pontos concretos merecem atenção imediata:

Organize os controles internos: Revise se todos os pagamentos realizados pela empresa estão devidamente documentados com notas fiscais corretas. Verifique se há mistura entre despesas pessoais e empresariais.

Mapeie sua cadeia de fornecedores: Identifique quais fornecedores estão no Simples Nacional, quais estão no regime geral e quais têm histórico de regularidade fiscal. Isso vai determinar o crédito disponível para sua empresa.

Reavalie sua precificação: Entenda o real custo tributário atual de cada produto ou serviço e como ele será afetado pelos novos tributos. Não espere a transição para descobrir que sua margem foi comprometida.

Aproxime-se do seu contador: A relação com o escritório contábil precisa evoluir de reativa para proativa. As decisões de compra, venda e precificação precisam incluir o olhar tributário antes de serem tomadas, não depois.

Estude a base: Não é necessário dominar todos os 600 artigos do regulamento do IBS. Mas é essencial compreender a lógica da não-cumulatividade, o conceito de tributação no destino e como os documentos fiscais passam a funcionar na nova sistemática.

Conclusão

A reforma tributária não é uma ameaça para quem está preparado, mas uma oportunidade de diferenciação. O período de transição será complexo, exigente e, para muitos, seletivo. Mas as empresas que encaram essa mudança com seriedade, organizam seus processos e constroem uma relação estratégica com seus parceiros contábeis e consultores estarão, no longo prazo, em posição muito mais competitiva.

 

 

Beatriz Prado - Sócia na Mirar Gestão Empresarial

 

Assista o episódio sobre Reforma Tributária, do Podcast na Mira da Estratégia, no YouTube e no Spotify.

 

*Este artigo foi produzido com base no 2º episódio do podcast Na Mira da Estratégia, da Mirar Gestão Empresarial, com a participação de Guilherme Boaro (contador e especialista em planejamento tributário estratégico), Leandro Cordeiro (auditor e consultor financeiro) e Marla Murillo (especialista em tributos indiretos e professora de MBA), mediados por Beatriz Prado, sócia da Mirar.