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Cultura organizacional: o que muda e o que precisa continuar igual

 

No Brasil, estima-se, em média, que cerca de 30% das empresas familiares chegam à segunda geração, entre 10% e 15% chegam à terceira, e menos de 3% chegam à quarta. Os números podem ter uma variação de acordo com estudos de instituições como a Fundação Dom Cabral e o Sebrae, mas todos apontam na mesma direção: a maioria das empresas familiares não sobrevive à passagem de bastão. Essa tendência ajuda a explicar por que manter uma empresa familiar, geração após geração, é um dos maiores desafios da gestão empresarial, e por que tantas famílias empresárias vivem sob a mesma tensão silenciosa entre preservar o que foi construído e permitir que o negócio se atualize.

Entender o que precisa mudar e o que precisa permanecer intacto é o que separa as empresas que atravessam gerações das que se perdem no caminho.

Cultura é viva, valores fundamentais não são

Cultura organizacional e valores fundamentais costumam ser tratados como se fossem sinônimos, mas cumprem funções bem diferentes dentro de uma empresa. A cultura muda de acordo com o momento do negócio: numa fase de crescimento tranquilo, ela tende a ser mais leve e permissiva; numa fase de crise ou de pressão por resultado, ela naturalmente se torna mais exigente. Isso não é um defeito de gestão, é esperado, e faz parte do ciclo natural de qualquer organização.

Os valores fundamentais, por outro lado, são os alicerces que os fundadores estabeleceram desde o início, e que não deveriam mudar independentemente do momento da empresa: respeito, integridade, compromisso com o cliente, por exemplo. Empresas que confundem cultura com valor fundamental tendem a tratar tudo como imutável, e isso trava a adaptação que toda transição entre gerações exige. O oposto também é arriscado: tratar os valores fundamentais como algo negociável a cada nova gestão erode a identidade que sustentou o negócio até ali.

Cada geração recebe um mundo diferente

Cada geração cresce dentro de um contexto diferente, com prioridades diferentes, e isso não é uma ameaça à identidade da empresa, é parte natural da sua evolução. Há casos de empresas em que, na segunda geração, tomar café durante o expediente era proibido, via-se qualquer pausa como sinal de falta de comprometimento, um reflexo direto da rigidez que marcou a fundação do negócio. Hoje, na terceira geração, a mesma empresa oferece chimarrão no ambiente de trabalho, celebra aniversários da equipe e mantém horários mais flexíveis para quem entrega os resultados combinados. A superfície muda; o alicerce que trouxe a empresa até aquele ponto, o compromisso com a qualidade e com o cliente que o fundador estabeleceu, permanece intacto, só que expresso de outra forma.

O risco real está nos dois extremos. De um lado, descartar tudo o que vinha de antes em nome da modernização, o que apaga a identidade que diferenciava o negócio no mercado. De outro, recusar qualquer mudança em nome da tradição, o que afasta talentos, clientes e, muitas vezes, a própria nova geração de líderes. Os dois caminhos aumentam a chance de a empresa não sobreviver à transição para a geração seguinte, não porque a mudança em si seja perigosa, mas porque ela não foi conduzida com critério.

O peso de não poder quebrar na própria mão

Um dos aspectos mais delicados da sucessão é o peso emocional que recai sobre quem assume a empresa depois do fundador. Essa pessoa carrega a responsabilidade de não deixar o negócio ruir justamente durante a sua gestão, o que aumenta, de forma quase instintiva, a resistência a qualquer mudança de cultura, mesmo quando essa mudança é claramente necessária.

Esse peso fica ainda mais evidente quando um fundador falece de forma repentina e os filhos precisam assumir a gestão sem preparo prévio, sem processo de sucessão formalizado, sem um plano de transição e, muitas vezes, sem nunca terem discutido abertamente quem faria o quê. Nesses casos, é comum que uma única pessoa, geralmente a mais próxima da rotina do fundador, concentre toda a responsabilidade pela empresa, enquanto os demais herdeiros ainda se enxergam como funcionários, cumprindo horários e tarefas, e não como líderes com poder de decisão sobre o negócio.

O trabalho de desenvolvimento, nessas situações, começa antes de qualquer questão operacional: é preciso primeiro ajudar cada herdeiro a reconhecer o próprio papel de liderança dentro do negócio, o que muitas vezes exige desconstruir a ideia de que "liderar a empresa da família" é papel de uma pessoa só, para só então tratar de processos, metas e resultados. Sem esse reconhecimento inicial, qualquer tentativa de reorganizar a gestão tende a encontrar resistência silenciosa, porque a mudança é vivida como imposição, e não como decisão compartilhada.

Como identificar o que pode mudar e o que não pode

Uma pergunta simples ajuda a separar cultura de valor fundamental na prática: "se essa prática ou comportamento desaparecesse, a empresa perderia a sua identidade, ou apenas se atualizaria?". Regras sobre horário, vestimenta, rituais internos e até estrutura hierárquica tendem a ser cultura, podem e devem evoluir. Já compromissos como a relação com o cliente, a ética nos negócios e o cuidado com as pessoas tendem a ser valores fundamentais, e são esses que precisam ser protegidos, geração após geração, independentemente de quem esteja no comando.

O que fazer na prática

Manter a cultura de uma empresa familiar viva ao longo das gerações depende de três movimentos, que funcionam melhor quando conduzidos juntos: identificar com clareza quais valores são realmente fundamentais e não devem mudar; permitir que a cultura se adapte ao contexto de cada geração sem descartar o legado que veio antes; e preparar cada sucessor para assumir a responsabilidade de liderança antes que a transição aconteça, e não durante a crise que ela costuma gerar quando é feita às pressas.

Na prática, poucas famílias conseguem fazer essa leitura sozinhas, justamente porque estão dentro da história, e não fora dela. Um olhar externo, sem o peso emocional da sucessão, costuma enxergar com mais clareza o que é tradição a ser preservada e o que é apenas hábito a ser atualizado.

 

Assista o episódio sobre Liderança, do Podcast na Mira da Estratégia, no YouTube e no Spotify.

 

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